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Desafios urbanos: os alagamentos na cidade de Uberlândia

Por: Beatriz Nascimento

A ocorrência de chuvas intensas, especialmente durante o verão, é comum em muitos municípios do Brasil. Alguns enfrentam problemas como enchentes e alagamentos como resultado dessas chuvas. É o caso de Uberlândia, que enfrenta desafios para estabelecer um planejamento urbano adequado para atender a população. A cidade, desde sua fundação em 1888, foi construída ao redor de importantes córregos e áreas cobertas por superfícies de águas que cortam seu perímetro urbano. Esses alagamentos, que geralmente ocorrem no verão, representam um problema crônico, agravado pelo seu crescimento.

O epicentro dos problemas: Avenida Rondon Pacheco e córregos urbanos

O principal problema dos alagamentos em Uberlândia ocorre na Avenida Rondon Pacheco e vem da água dos córregos Jataí e Lagoinha, que, ao transbordarem, acabam por inundar as vias. A Avenida Anselmo Alves dos Santos e outras proximidades do córrego Lagoinha também passam por essa dificuldade. Isso se dá porque a construção tanto da Avenida Rondon Pacheco quanto dessas outras vias atravessa os córregos, que foram canalizados sob elas. Em qualquer ponto das vertentes, que correspondem às laterais das vias, a água não tem como se infiltrar no solo, devido à falta de áreas permeáveis, que são resultado da urbanização e ocupação desses locais. Em vez disso, a água escoa superficialmente, correndo pelas ruas e se concentrando, assim, na avenida.  

A vegetação desempenha um papel crucial na desaceleração do fluxo de água, gerando atrito com o solo, a grama, as plantas e os troncos de árvores. Isso faz com que a água se mova mais lentamente. No entanto, com o asfalto, a superfície é lisa, permitindo que a água escorra rapidamente. No passado, a água costumava cair, com uma porção sendo absorvida pelo solo, outra escorrendo superficialmente e parte dela infiltrando-se, no entanto, a urbanização intensiva dessas regiões alterou essa dinâmica.

Desafios técnicos: represas e drenagem adequada

Algumas áreas já passaram por intervenções visando à redução desses problemas, segundo a Prefeitura de Uberlândia. Um exemplo é o Córrego Jataí, que foi canalizado sob a Avenida Anselmo Alves dos Santos. Além disso, uma represa entre a Rua Ana Cardoso da Silva e a Avenida Jaime de Barros também foi feita para esse fim. Apesar disso, em janeiro de 2022, após mais um caso de alagamento decorrente de chuvas de verão que assolaram a cidade, a Justiça ordenou que a administração municipal, em colaboração com o Departamento de Manutenção de Água e Esgoto (DMAE), apresentasse uma proposta de intervenção para lidar com os problemas decorrentes das fortes chuvas nessa época do ano. O documento também mencionou ocorrências de alagamentos em anos anteriores. Essa determinação foi emitida pelo juiz João Ecyr da Mota Ferreira.

Um mês depois, em um anúncio feito no dia 9 de fevereiro de 2022, o prefeito de Uberlândia Odelmo Leão divulgou detalhes da iniciativa, por meio do programa Buriti Cidade, que, segundo ele, estaria sendo desenvolvido desde o primeiro semestre de 2020. De acordo com informações oficiais do site da Prefeitura, a iniciativa envolvia um estudo abrangente da Bacia do Córrego Lagoinha, tendo resultado na proposta de construção de várias represas e 20 km de redes auxiliares. O principal objetivo seria conter a água da chuva que flui da região dos parques Santa Luzia e Camaru diretamente para a Avenida Rondon Pacheco. O prefeito destacou que, ao longo do período de estudo, várias outras ações foram implementadas para mitigar os efeitos das chuvas.

O professor Hélio Carlos Miranda de Oliveira, especialista em Planejamento Urbano e docente do Instituto de Geografia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), explica que a construção de represas de contenção, sem um sistema de drenagem eficiente para direcionar a água pluvial, não resolve o problema: “No caso da Avenida Rondon Pacheco, que é uma via extensa, direcionar toda a água para represas não é uma solução eficaz, principalmente em situações de chuvas intensas. Isso porque, devido à variabilidade do volume de chuvas, há a possibilidade de a represa não conseguir comportar toda a água. Quando a capacidade da represa é atingida e o nível da água atinge sua margem máxima, é essencial evitar o transbordamento, uma vez que isso pode resultar em danos à estrutura da barragem”, detalha. 

Oliveira explica que o ideal é direcionar a água de maneira apropriada, para que alcance as áreas de contenção quando necessário, através de sistema de drenagem que colete a água da chuva e a transporte para as galerias de drenagem. Um sistema de drenagem eficiente compreende a instalação de bocas de lobo em quantidade suficiente, bem como a construção de galerias capazes de suportar o volume de água das chuvas. As galerias são as construções que foram feitas para o córrego, que é canalizado, passar. Já as bocas de lobo servem para coletar a água pluvial e encaminhá-la para as galerias, através de canos subterrâneos, que também devem estar dispostos em quantidade suficiente, pois são os responsáveis por transportar as águas das bocas de lobo para as galerias.

Conforme revelado em um detalhado relatório sobre a infraestrutura municipal, destaca-se que a extensão total das vias públicas urbanas, incluindo redes ou canais subterrâneos para águas pluviais, atinge a marca de 1.841 km, enquanto a infraestrutura de drenagem é representada por uma rede de 15.736 bocas de lobo. No entanto, 15.736 bocas de lobo em Uberlândia para apenas 1.841 km de canais subterrâneos mostram-se desproporcionais, visto que é através desses canais que as águas captadas pelas bocas de lobo irão ser conduzidas para seu destino final, no caso as galerias.

“Embora as bocas de lobo sejam visíveis na superfície, é importante compreender que, por baixo, deve haver um sistema de dutos que conduza a água para o local desejado. Além disso, seria necessário avaliar se as galerias da Avenida Rondon Pacheco são capazes de coletar e drenar toda essa água vinda através das bocas de lobo e canais subterrâneos, especialmente durante eventos de chuva de grande intensidade. Em alguns locais de Uberlândia, como a avenida em frente à rodoviária, a construção de grandes galerias contribuiu para melhorar o escoamento da água e reduzir os problemas de alagamento”, reforça o especialista.

Inundações em Uberlândia: Entre desafios urbanos e resistência imobiliária na Avenida Rondon Pacheco, especialista propõe soluções sustentáveis

Outro ponto salientado pelo professor é que a escolha de construir barragens se destaca como uma opção mais econômica e menos impactante socialmente, quando comparada à alternativa de demolir e reconfigurar a ocupação urbana. No entanto, essa abordagem enfrenta desafios consideráveis ao ser aplicada em áreas já consolidadas, implicando desapropriações e acarretando custos expressivos para a Prefeitura. Adicionalmente, a contínua impermeabilização do solo demanda a construção de barragens com dimensões cada vez maiores, tornando-se uma solução impráticável no longo prazo.

Uma das propostas apresentadas pelo especialista é a construção de bolsões de retenção, como piscinões, que já existem em algumas áreas, como no Parque Santa Luzia. Essas estruturas têm a finalidade de controlar o fluxo de água em momentos de chuvas intensas, mas Oliveira salienta que o cerne do problema reside na falta de áreas permeáveis. Segundo ele, a solução científica envolveria o aumento da taxa de permeabilidade tanto em lotes privados quanto em espaços públicos.

Apesar disso, algumas abordagens que fazem sentido do ponto de vista científico podem não ser viáveis socialmente, devido à complexidades nos jogos de interesse.  O desafio se intensifica em áreas já consolidadas, como a Avenida Rondon Pacheco, uma região valorizada no mercado imobiliário da cidade. A especulação imobiliária se torna um entrave para a implementação de áreas permeáveis, uma vez que o aumento dessas reduziria a disponibilidade para construção.

Com relação às áreas públicas, o especialista exemplifica o aumento de permeabilidade  semelhante aos que foi instalado na calçada da UFU, mas alerta que é uma abordagem desafiadora, especialmente para a administração pública, devido às demandas de manutenção contínua, à durabilidade limitada e ao custo elevado. Ele explica que o asfalto, apesar de ser caro inicialmente, possui uma durabilidade significativamente maior, especialmente quando se trata de resistir ao tráfego de veículos pesados.

A política da ausência: Plano Diretor e Investimentos Públicos

O Município de Uberlândia não possui um Plano Diretor de Drenagem e Manejo das Águas Pluviais Urbanas, e seu Plano Diretor não é revisado desde 2006, apesar da promessa de uma revisão programada para 2014, que nunca aconteceu. A necessidade de revisão deste último e de criação do primeiro ganha destaque diante dos desafios enfrentados pela cidade, visto que, por meio deles, seria possível a redefinição do crescimento urbano até a revisão do sistema de drenagem, incluindo uma análise detalhada das interações entre as principais avenidas e os corpos d’água locais. 

Para o especialista, a ausência de um Plano Diretor representa a falta de planejamento e de políticas públicas referentes às águas pluviais, sendo que a implementação de uma política pública nesse sentido obrigaria investimentos nessa área. Além disso, pode ser uma estratégia política, porque não obriga a gestão pública municipal a investir nessa área. “As bocas de lobo, em geral, representam a única manifestação visível desse sistema para a população. No entanto, sua presença nas proximidades das residências não é bem-vinda pela população. O elevado custo das obras de infraestrutura, especialmente aquelas vinculadas ao sistema de drenagem, muitas vezes não resulta em visibilidade política”, afirma.

No anúncio, também foi divulgado o custo total do projeto, que somava R$ 30 milhões. Desse montante, R$ 18 milhões seriam provenientes da Vale, empresa de mineração que foi responsável pelos incidentes em Brumadinho, MG, com aportes adicionais do governo de Minas Gerais. Os recursos restantes seriam provenientes dos cofres da Prefeitura Municipal de Uberlândia. Na época, a previsão era iniciar as obras entre fevereiro e março daquele ano. Entretanto, conforme relatado pelo G1 em agosto de 2022, seis meses após o anúncio, as obras ainda não haviam sido iniciadas.

Foi somente no dia 23 de dezembro de 2022 que a Prefeitura de Uberlândia anunciou a instalação de dez semáforos – cinco de cada lado da Rondon Pacheco. Esses semáforos, sinalizados em laranja para alertar sobre chuvas intensas e em vermelho para ordenar evacuação imediata, foram adotados como medida de precaução. Além disso, no dia 6 de janeiro de 2023, o prefeito Odelmo Leão informou, em postagem no perfil da rede social X (antigo Twitter), que o início das obras foi autorizado, justificando o atraso devido a questões ambientais relacionadas à obtenção das licenças necessárias.  

Com a intensificação de eventos climáticos extremos, o desafio transcende o planejamento urbano do passado, segundo Oliveira. “Muito possivelmente, uma obra que foi pensada há 20 ou 30 anos atrás não daria conta de atender o que tem acontecido por conta dessas mudanças climáticas recentes”, destaca.

Além disso, o especialista aponta que um sistema de drenagem urbana é uma das medidas que auxiliam, mas que sozinho não resolve a situação. “Como será o futuro? Acredito que a tendência é agravar-se. Certos aspectos poderão ser atenuados, mas a manutenção de áreas verdes e o uso de semáforos para minimizar danos materiais e à vida são essenciais. É importante evitar entrar na Avenida Rondon, seja de carro, a pé ou de moto, quando os sinais de alerta estiverem piscando, uma vez que isso implica riscos de acidentes ou perda de bens materiais. Ter sistema de drenagem urbana pode ajudar? Pode. Vai resolver? Não necessariamente. A menos que seja construída uma supergaleria com um sistema de drenagem capaz de lidar com chuvas de 500 milímetros em uma hora, o que é extremamente caro e ninguém vai fazer”, finaliza.

Enquanto esta reportagem estava sendo produzida, no dia 16 de outubro deste ano (2023), a Prefeitura informou que a represa relacionada à área do Camaru estava sendo finalizada. Apesar disso, um pronunciamento sobre detalhes da proposta e um parecer sobre o que já foi feito das obras de construção de várias represas e 20 km de redes auxiliares não foi encontrado no site oficial do município. Até o momento, esse foi o último pronunciamento público sobre o status do projeto. A equipe da Agência Oiti entrou em contato com a Prefeitura no dia 19 de outubro em busca de um esclarecimento sobre as obras, além da situação das galerias e sistema de drenagem da cidade, mas não obteve uma resposta até a publicação desta reportagem.

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